quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"Estimulante e Deveras Viciante"

Mossad – espiões contra o Armagedão”, da autoria de Dan Raviv e Yossi Melman – ed. Marcador –
é um estimulante e deveras viciante livro para todos quantos se interessam pela temática dos serviços secretos, nomeadamente os que estão directamente relacionados com o moderno Israel. Quer se goste, quer se reprove as acções desses serviços de “inteligência”, certo é que os mesmos nunca deixaram de despertar desde a sua criação a curiosidade e admiração em milhões de pessoas, até mesmo naquelas que são as primeiras a criticar a existência destas organizações e, concomitantemente, do estado-nação que protegem.
 

Inserindo-se no género de publicações mais recentes que abordam o assunto em questão, como são os casos de “Os espiões de Gedeão”, de Thomas Gordon, e “Mossad – os carrascos de Kidon”, de Eric Frattini, este livro da dupla Raviv/Melman vai mais além, atrevendo-se mesmo a “passar o Bojador” ao abordar temas desde sempre considerados “tabu” pelas instâncias que zelam pelos serviços de vigilância e espionagem da nação judaica.

Seguindo uma sequência que se poderá considerar cronológica, os autores, numa linguagem escorreita corroborada por tradução exemplar a cargo de Óscar Mascarenhas, dão a conhecer uma mão cheia de operações efectuadas pela Mossad, assim como pelos demais serviços secretos israelitas, que, de certo modo, passaram a figurar em qualquer antologia quando se procura informação acerca da temática abordada. Para além dos sucessos dos agentes judeus, os autores não se coibiram de relatar também os grandes e estrondosos fracassos e as humilhantes consequências resultantes de algumas acções levadas a cabo de um modo precipitado, estranho ao normal “modus operandi” tradicional das agências responsáveis pela manutenção de um nível de segurança que permite uma vida estável às populações de Telavive e de Jerusalém, principalmente quando pelo meio havia – ou há - ingerências de índole política e pessoal que em nada abonam em prol da folha de serviços dessas organizações.

Este livro tem também a grande mais-valia de ter sido escrito por quem conhece bem os meandros deveras sinuosos do mundo da espionagem, tendo os autores contado com os testemunhos de dezenas de entrevistados recolhidos ao longo de vários anos. Como é de esperar, a maior parte daqueles que revelaram determinados segredos não quis ser identificada. Outros, no entanto, sentindo que a vida se aproxima rapidamente do seu nadir e ocaso, aproveitaram o ensejo proporcionado pelos autores para levantar um pouco o denso véu que envolvia os seus respectivos passados obscuros, movidos quiçá por um certo orgulho pelo que fizeram e para que essas memórias não caíssem eternamente no esquecimento. Outros ainda, como sucedeu com alguns, levados por sentimentos revanchistas silenciados durante décadas, mas que jamais se atenuaram, tiraram proveito das entrevistas concedidas para sacudir a “água do capote”, dando a sua versão pessoal dos acontecimentos em que estiveram pessoalmente envolvidos.

Em suma, um livro estimulante, bem estruturado, convincente, que merece uma leitura atenta, mais não seja para descobrir a página onde é referenciado, com base em testemunhos de quem presenciou isso na primeira pessoa, que Saddam Hussein – aquele que ameaçou destruir para sempre o estado de Israel – chegou, na década de 70 do transacto século, a fazer parte da lista de pagamentos que a Mossad fazia àqueles que lhes forneciam informações sobre o que se passava na agitada e conturbada periferia que desde sempre existiu em torno da pátria dos judeus."
 
Luís Corredoura