sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SUAVES PORTUGUESES

Hoje deixamos-vos com um dos textos que Pedro Marques Lopes foi escrevendo ao longo dos últimos 10 anos e, que agora podemos encontrar no seu livro, SUAVES PORTUGUES.

"Um cidadão chega a casa, calça os chinelos felpudos, pega na sua mantinha favorita, liga a televisão e, com um suspirinho, deita-se no sofá. Quando está bem aconchegado, cigarros e isqueiro ao alcance da mão, bolachinhas de coco no pires e um chá verde a fumegar, estende o braço para o sítio onde deveria estar o mais precioso bem de qualquer preguiçoso que se preze: o comando da televisão.

Há quem não preste a devida atenção às possíveis consequências deste gesto. Atos de violência sobre criancinhas, divórcios altamente litigiosos, destruição de bens e coisas menos graves como discursos xenófobos, atos terroristas e golpes de Estado, podem acontecer em consequência da necessidade de deslocar um membro superior.

Ligada a televisão, o cansado cidadão vê o Dr. Phil a discorrer sobre a importância de não consumir feijão para o necessário equilíbrio matrimonial. Enquanto volta do local onde está a televisão para o seu sofá, ainda vai refletindo sobre a sagacidade do bom do Phil. Mas hoje está a sentir-se mais leve e apetece-lhe mesmo é descontrair ao doce som da voz do Pacheco Pereira. Pânico: não está lá o comando ou falta-lhe uma pilha ou é o da aparelhagem. Para evitar a catástrofe, é melhor que não esteja nada em seu redor. Ainda na semana passada uma senhora foi atingida na cabeça com uma Playstation portátil, que um dos filhos do pacato cidadão tinha deixado no lugar de um telecomando, enquanto estava a adicionar o preço certo de uma embalagem Racomi isco.
 
A imagem da matrona atrás do frágil marido, armada com um rolo da massa, é quase um ato de ternura quando comparada com a crueldade da mulher a subtrair o comando da televisão ao seu consorte quando ele está com aquele ar angelical, só com o nariz de fora da manta, preparando-se para uma sessão de furioso zapping.
 
Há muito que o comando substitui o carro como prolongamento do sexo masculino. A verdadeira imagem do pater famílias contemporâneo é a do homem todo-poderoso, de comando em riste."